segunda-feira, 30 de maio de 2011

Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples. 

Nossa dor não advém das coisas vividas, 
mas das coisas que foram sonhadas 
e não se cumpriram.




Por que sofremos tanto por amor?





O certo seria a gente não sofrer, 
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana, que gerou
em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável, 
um tempo feliz. 





Sofremos por quê?




Porque automaticamente esquecemos 
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos 
de ter conhecido ao lado do nosso amor 
e não conhecemos,
por todos os filhos que 
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,





por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, 
pela eternidade. 




Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco, 





mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema, 
para conversar com um amigo, 
para nadar, para namorar.




Sofremos não porque nossa mãe 
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias 
se ela estivesse interessada 
em nos compreender.





Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.





Sofremos não porque envelhecemos, 
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, 
impedindo assim que mil aventuras 
nos aconteçam, 
todas aquelas com as quais sonhamos e 
nunca chegamos a experimentar.





Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!





A cada dia que vivo, 
mais me convenço de que o 
desperdício da vida 
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.





A dor é inevitável.




O sofrimento é opcional.






Carlos Drummond de Andrade

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